"Sobre a morte: Basta dizer que, em algum ponto do tempo, eu me erguerei sobre você com toda a cordialidade possível. Sua alma estará em meus braços. Haverá uma cor pousada em meu ombro. E levarei você embora gentilmente"
Gentilmente... Espero que esteja falando a verdade mesmo dona Morte, porque os que você deixa nunca te percebem gentil. O que eu entendo não ser culpa sua, afinal, todos sabem que uma hora ou outra você vem, mas até mesmo quando é claro que está chegando, quando chega é como se nunca tivéssemos te esperado.
Ultimamente nós estamos nos vendo com frequência não? Espero que essa tenha sido a sua ultima aparição, essa que você levou meu exemplo de vida - desculpe ser assim tão rude, mas vamos concordar que suas aparições não são muito das mais aguardadas - meu porto seguro de olhos verdes.
Como eu disse, várias vezes eu pensei que esteva perto, às vezes até mesmo que precisava vir porque tem casos - como esse - nos quais a pessoa não merecer o sofrimento que lhe é causado, destinado, não sei. E eu sempre achei que ele nunca merecia passar pelo que passou, afinal a gente aprende que coisas ruins apenas acontecem com pessoas ruins e uma pessoa que tem cabelo de algodão e deixa fazer penteado de punk nele não pode ser ruim nem ter sido. Um homem que brinca com a neta de boneca e aguenta a mesma cantar para ele dormir com um sorriso no rosto não poderia passar pelas coisas que ele passou. O marido que combina com a mulher se encontrar para um café, jamais deveria sofrer. Na verdade, pessoas não deveriam sofrer, elas sempre tem alguém.
E mesmo ali deitado eu sabia que ele não estava bravo com a vida. Mesmo sem dizer nada eu sei que ele estava aceitando tudo pela fé e amor que sentia.
Preparada para quando você viesse com as cores, com o café, com a gentileza... Vi que não era suficiente para quando acontecesse. Você chegou e foi dolorido do mesmo jeito. Eu não conseguia dizer adeus, simplesmente não conseguia, como se todas as memórias que eu tinha fossem embora junto com ele. Porque o homem que conheci já tinha ido fazia muito tempo, mas o corpo dele indo embora, me fez sentir medo de esquecer seu rosto, seu sorriso e toda história que o envolvia.
E com tudo isso, chego à conclusão que não é você que é ruim, triste, querida, é o amor egoísta que nós humanos possuímos que faz com que pareça assim. Mesmo sabendo que é necessária, sua visita atrapalha o amor possessivo que achamos ser tão puro.
Mesmo sabendo disso tudo, eu te peço: chega dos nossos encontros, por favor. Eu acho que chegamos naquele momento no qual a amizade desgasta e precisamos dar um tempo, ficar longe um pouco, tira umas férias. Deixa eu e meu amor egoísta, possessivo e falsamente puro descansar, meu coração precisa de um trégua.