Para mim que estou acostumada a chegar na "casa da vó" e te ver vindo com aquele olhar calmo, mãos descansando na frente da barriga, com um sorriso que cabia o meu amor e o seu inteiro, oferecendo "pudim de pão da vó", vai ser difícil entrar e não te ver mais, não te mostrar meus trabalhos da faculdade pra você explodir de orgulho de mim e contar pra todo mundo. Mais difícil ainda vai ser ir embora sem a "benção da vó", seu abraço apertado, o beijinho na testa, o elogio à altura do meu irmão e seus "toques de mão" porque "você é uma avó atualizada".
Quem vai pegar no meu pé para que eu aprenda crochê, tricô e costurar? Como vou lidar com as memórias de você sempre me protegendo do mundo e cantando pra mim quando algo doía? Até guardanapos me lembram você, com as bonecas que me distraíam por horas. A cada palavra que escrevo aqui as lembranças saltitam e meu coração vai abrindo um buraco. É isso que é a sua partida, um buraco em mim, diferentes das outras perdas que parecem que o coração está doendo porque tem alguém apertando ele, a dor da perda pela morte dói como se um buraco estivesse sendo feito, um oco no peito estivesse sendo forçado a existir. Nesse oco só cabe você, com seu jeitinho.
"O céu é um lugar lindo. Lá nada dói, não existe raiva, não existe problemas. Os animais vivem em harmonia e os humanos também. É uma paz muito grande e uma alegria sem fim" - Era assim que você me descrevia o lugar para onde vamos quando morremos. Cresci, meus conceitos mudaram e essa visão sumiu de mim, mas hoje eu nunca quis estar mais errada, quero que você esteja nesse lugar onde sempre quis estar, com a alegria que sempre buscou, a paz que sempre quis.
Meu amor egoísta não queria que você fosse embora, meu amor cego não te viu ir, meu amor bobo se recusa a aceitar sua partida e o mais bobo ainda acha que vou chegar na sua casa e te ver dizendo que é tudo mentira, que foi só um sonho ruim e está tudo bem.
A casa e o pudim não têm mais identidade própria e o mundo tem uma pessoa moderna a menos, um carinho imenso a menos. Mas você? AH você é eterna, vovó.